quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O Livro Flutuante (parte l )





Um livro desceu o rio Amper.
Um menino pulou na água, alcançou-o e o segurou com a mão direita. Sorriu.
Estava afundado até a cintura na gélida água dezembrina.
-Que tal um beijo, Saumensch? - disse.
O ar em volta era de um frio encantador, fantástico, nauseante, para não falar na dor concreta da água, que o endurecia dos pés ao quadril.
Que tal um beijo?
Que tal um beijo?
Pobre Rudy.


Em suas visões, você vê as bordas empapadas do papel, ainda grudadas em seus dedos. Vê uma franja loura tremendo. E conclui antecipadamente, como faria eu, que Rudy morreu nesse mesmo dia, de hipotermia. Pois não morreu. Esse tipo de recordação só me faz lembrar que ele não merecia o destino que teve, pouco menos de dois anos depois.
Em muitos sentidos, levar um menino como Rudy foi um roubo - tanta vida, tanta coisa por que viver -, mas, de algum modo, tenho certeza de que ele teria adorado ver os escombros assustadores e a inchação do céu na noite em que se foi. Teria gritado, rodopiado e sorrido, se ao menos pudesse ver a roubadora de livros apoiada nas mãos e nos joelhos, junto a seu corpo dizimado. Teria ficado contente em vê-la beijar seus lábios poeirentos, atingidos pelas bombas.
É, eu sei.
Na escuridão de meu coração tenebroso, eu sei. Ele teria adorado, com certeza.
Viu?
Até a morte tem coração.



A menina que roubava livros - Markus Zusak

05 agosto 2010

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